SANCTUM POETICUM




“Eu direi as palavras mais terríveis esta noite... este é o meu estranho emprego este mês”
(Roberto Piva)
Estive muito tempo dentro de um buraco
E agora que o buraco esta dentro de mim
Posso escavar-me sempiternamente ao meu bel prazer
Nesse determinar-se ad infinitum...
Tive um êxtase dionisíaco um delírio profético
Ao qual eu batizei de tanatologia para mortos-vivos
Um delírio epifânico aflorou-me as portas da percepção
Dando-me acesso a um arcanum revelador
Ao qual vos participo agora irmãos...
Fui eu quem matou a poesia para que ela fosse crucificada
Canonizada santificada entronada e adorada novamente
Tornalá-ei dogma e em seu nome erguerão altares
A louvarão em êxtase e com fremir e em júbilo verterão lágrimas de emoção
Em nome da veneranda santa poesia
Regozigem-se ovelhas do rebanho poético da salvação
Prostem-se perante a mater nostra intercessora dos deuses
Tragam suas humildes oferendas
Ofereçam em holocausto seus filhos inocentes e suas próprias vontades
Para a gloriosa expiação de vossas mediocridades
Sacrifiquem jovens virgens a poesia reclama por sangue puro
O cabaço deve ser deflorado ad majorem gloriam sanctus poeticum
Aproximem-se todos em ecumênica adoração e reverência
Venham lavar seus cus hipócritas com o vinho da oblação
E da purificação através da desmesura da libido corporis
No desabrochar vertiginoso da arte poética.

LEIDIVAN  ROGRIGUES

MEMÓRIAS FILMADAS PELO MENINO CINEASTA

In memoriam de Régis Moreira (1988-2010)
Nos deixou assim como quem não foi .Se tivesse pelo menos me falado não tinhas partido .Não deixaria a reta que traçou entortar seu destino. Entre um passar de vida e começo de morte .Andou pelo solo do mundo .No curta metragem existencial dos teus sonhos. De vez em quando queria ser Antoneoni no eclipse funesto da última noite .Escondia-se no suspense de um corpo que cai procurando Hitchcock .Passeava por Bergman no jardim dos gritos e sussurros . Entregue ao chamado da sétima arte .E o grito de sua aflição .Seu filme será sempre assistido pelo cinema de nossas lembranças . João Henrique 02/11/2011

Um velho louco se debruça
sobre as janelas do pensamento
onde o verbo se faz carne
e do caos brota o mundo

Mira-se no espelho de Narciso
molda o esterco com as mãos
dando-lhe forma e conteúdo
um escarro, porém, lhe dá vida

o velho fica a esgueirar-se
espionando sua criação
dia após dia fica se escondendo
a rir do seu patético brinquedo

no brilho doentio de seus olhos
pode-se ver o azul celeste
e na aridez de sua pele
todas as chagas do mundo

os mais divinos entorpecentes
o levam aos desertos do norte
o levam a terra de púrpura
e todo mundo conhecido

dias e noites...dias e noite
o ciclo infinito da existência
razão cósmica insuprimível
geradora da total insanidade

o velho aguarda aborrecido
por infindáveis anos a fio
no tédio da ridícula onisciência
a morte que teima em não vingar.

EDSON   XAVIER

A VOZ FAMILIAR

Uma voz ecoa intimidando caminhos Chega a pronunciar blasfêmia e pecado Destrói idéias, rindo, consome o vinho Segue o martírio de ser um amaldiçoado. É capaz de criar e em detalhes se perder Faz-se mostro e herói, tão criativo e tão cego Desenvolve a armadilha que o faz sofrer Diariamente afeta o seu louco ego. Lembro-me das vezes em que chegavas embriagado Brindavas com a derrota e cuspia os pilares da moradia Logo a sarjeta, era rapidamente agregado Sentia a angustia ao fim do dia. Que fizeste para chegar a tal estado? És um tolo por deixar-se levar ao infortúnio Substitui-se por promessas repetidas São abatidas e por gestos és vedado Tu reges entre pai, filho, salvador e tirano O irmão crápula, o bem e o mal da família A fé e a descrença que inspiram ao pequeno És a ausência de mais um dia longo, dentre tantos, o desengano. (Talbert Igor)

Nota de rodapé
ou trecho suprimido
anjos
são demônios subidos.

A noite

Subindo paredes. Saciando a sede.... O suor, em seu corpo, vai condensando... Chovendo conforme vamos cansando. Gritos de alegria Em meio a um perfeito movimento de harmonia, Que, aos poucos, vai revelando desejos; Todos, deliciosamente, praticados entre beijos. Amo a maciez da tua pele E o cheiro que teu corpo expele. Adoro quando você, em mim, passeia, Pois nesse momento sinto o sangue pulsar [em minha veia]. Thiago Ivo

O Poeta e sua amante Poesia

Ali vai caminhando um homem chamado Poeta .Tropeçando no gritos e nas agruras do seu tempo.Conversa com as pitonisas e envereda pelas trilhas sem oráculos. É perseguido por Górgonas e Minotauros até o Hades solitário de suas crenças. Sussurra de vez em quando barulhos ao silêncio e faz metáforas com sofrimento crônico. .Depois de conhecer Poesia. O poeta rasga suas entranhas .E sua sede de carne conhece a hemorragia das paixões .A beleza escondida . O vicio. A entrega. .Nos becos sem tesão .Poesia faz danças em forma de cárcere .Nas avenidas sem orgasmos .Poesia trepa com todos. .Filha de um sátiro com uma puta .Mulher lúbrica encanta o poeta .Loucura,descontrole,luta. .Mulher dantesca salivada nos espinhos .Rosa mofada inundada de pétalas .Bebe o vinho ,bebe o vinho .Mulher caveira ! E dê a foda de todas as palavras . JOÃO HENRIQUE 10/09/2011

A NOITE

Meus caninos apodrecem lentamente Parece prudente que eu seja vencido Que se faça a vontade e se cumpra a sina Aceito a sentença que vem do desconhecido. Ofereço a Baco o rubro da carne e as tentações do prazer As tradições milenares, a vontade de ser Ser além do esperado. Perco-me na plantação de sonhos! Acho o motivo em um copo e o esqueço em tropeços. Por idéias, estou preso e acorrentado Leso por não acreditar em chances que sempre chegam. Ouço o ranger da alvorada e as passadas do relógio Que mistérios me aguardam ao fim do quarteirão? Abatido, termino o vinho que tanto me acompanhou Desapareço na escuridão entre vielas e calçadas. Vou chegando ao término de uma rotina que sempre tive Relembro a fotografia, sinto lentamente à brisa forte O destino faz-me perceber a cortina que estivera perto Meu corpo pálido e frio é um convite a morte. TALBERT IGOR

ESCAFANDRO NA LIBIDO DOS VAGA LUMES LOMBRADOS





Um sol castrado no horizonte límbico da putrefação cotidiana
Onde ventos nostálgicos sopram venenos do passado
No motor eólico do meu coração de energias renováveis.

Sentimentos descartáveis contribuem para o equilíbrio do planeta
No microcosmo de minhas idiossincrasias
Paralizados no macrocosmo da agonia e do desespero humano.

Arma na mão...
Roleta russa meu amor!!!!
A arma é meu irmão gêmeo siamês .

Fantasmas bocejam mudos
Na esquizofrenia de minhas sensações
Um gozo mais libidinoso que Sade
Palpita em meu corpo
Passeia em meus nervos frágeis
Me tiram do chão
Como uma crise de labirintite
Nos labirintos escafândricos na outra dimensão
Que se estende para além do corpo
Porém ainda nesse mundo...
Mergulho incerto na areia movediça de si mesmo
Nos inconcientes desejos Freudianos
Afundo, absorvo, implodo-me e exploro-me...
Vaga-lumes lombrados guiam-me escuridão a dentro
Dessa estrada turva
Que insinua a próxima curva bifurcada ladeira acima
Contra a corrente e na contra mão.
17/08/20011

Leidivan Maldito

SONHOS DE AMOR




Medonhas confidências fiz à lua,
A velha prostituta dos amantes,
Bebendo do meu copo, exposta e nua,
Permite-se ao desfrute das bacantes.

Orgástica e tão plena já flutua
Sangrando as ilusões mais delirantes.
Reflexos desta dama sobre a rua
Enganos falsificam diamantes.

Meus espermatozóides sem proveito,
Jogados nas latrinas da esperança.
Rolando, vou sozinho em velho leito

Arcando com meus erros. Grito amor,
Apenas o vazio inda me alcança
Lançando meus prazeres ao terror...

Marcos Loures

O cio da Terra


Terra que piso, terra que me sustenta,
Bendita terra que gera a semente...
Terra no cio,
Terra que inflama num grito
Na imensidão...
Ao parir cada parte de vida...
Nessa grandeza,
Sinto o cheiro da vida...
O rasgo que se rompe
Ao brotar de cada semente.
Água que sustenta os vegetais,
Sendo terra, tendo seiva,
Terra que amamenta sua criação...
Ovos fecundos dos passarinhos,
Vôos acasalados,
Cada qual com seu par,
Vejo os bem- te- vis,
Os canários,
Os sabiás e as juritis,
Ouça o cantar enamorado
Dos rouxinóis e dos pardais...
Em cada centímetro de terra tem cio,
A lontra no riacho quer gerar e quer parir...
O gado no pasto aumenta a criação...
Todos os mamíferos exalando cheiros no ar...
Onde mais uma vez a terra grita que tudo tem cio...
O cavalo selvagem corre rompendo fronteiras,
Vai à busca do seu par, para poder também acasalar...
O céu está coberto de pontos voadores, são insetos unidos
Copulando em pleno ar...
E a terra grita que está em criação...
A mulher quer ser mãe, óvulo fecundo,
Pare no leito e ouve sua cria chorar...
Tudo coopera para essa criação,
Ouça o som dos ventos nas árvores,
Levando os polens fecundos para outra árvore gerar...
Heis a semente, que rasga a terra, que brota no chão,
Rompe o hímen do chão quando decide procriar...
Bendita terra que gera que está sempre em criação,
Veja, sente, ouça tudo na terra mostra o seu cio...
E que o homem com as suas mãos maléficas de destruição,
Não ponha fim a essa constante renovação...
Terra que piso, terra que é o meu chão,
Terra que é mãe natureza...
Pego o meu torrão quero fazer parte dessa criação.

DEUNICE MARIA ANDRADE DE LIMA.

Entrevista


É UM DEVER DO BLOG DIVULGAR AS CABEÇAS POÉTICAS DE NOSSA REGIÃO.DESSA VEZ TEMOS RONALD FREITAS POETA PRESTES A LANÇAR SEU “CORPO AFLITO ”
F.C- Sei que seu pai foi um ávido leitor quais suas primeiras lembranças dessa época e de que forma isso o afetou?
Inegavelmente a presença da literatura confunde-se com a minha mais grata recordação... a figura sempre grave de meu pai e um mundo muito maior do que eu, mundo de contendas políticas, conversas de gente grande, pessoas “importantes” que volta e meia frequentavam minha casa, me distanciavam muito do colo paterno. Por volta dos dez anos, e meu pai já afastado da política passamos a ter um contato mais próximo, parte desse convívio devo ao Flamengo e os jogos que acompanhávamos juntos pela tv e pelo rádio ( lembra da rádio globo que só a partir das 18 horas apresentava algum sinal, acredita que hoje em dia ainda seja assim ). Dessa época o jogo de damas, os filmes de Charles Bronson e o gosto pela madrugada. Posso dizer que influência intencional nunca existiu, talvez pelo fato de não ter havido tempo hábil, posto que quando o perdi ainda não tinha completado dezoito anos. Mas posso dizer que a figura de meu pai sempre às volta com a leitura, seus livros, jornais, guardião do português mais castiço em seus memoráveis discursos, como orador virtuoso e professor, deixaram-me profunda impressão. Recordo-me apenas do único livro que me indicou, e ali por volta dos quinze, dezesseis, talvez tentando impressioná-lo, despertar sua atenção, surgiram as primeiras leituras de fôlego, como Dostoiévski , Herman Hess e o célebre Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde, que de certo para você também foi um livro de referência. Ingressávamos ali no mundo dos “intelectuais” ( risos ). Voltando a única indicação, o livro era a “ Guerra do Fim do Mundo de Mário Vargas Llosa, lembro-me perfeitamente quando me disse que depois de Euclides da Cunha foi quem com maior veracidade e grandeza retratou o cenário da Guerra de Canudos... tinha grande paixão por esse livro, como também por um compêndio chamado “Discursos Parlamentares de Carlos Lacerda” ... Jorge Amado também era leitura obrigatória. Com a sua ausência, restou-me toda essa biblioteca, a impressão mais funda e uma lacuna que curiosamente foi preenchida por um sujeito que você também conhece muito bem, alguém chamado Hélio Cerqueira, o nosso Velho Harry, o nosso Karamazov, o nosso héroi-alucinado, Helinho. Mas essa já é uma outra história. ( risos )
F.C- Sempre nos reuníamos nas noitadas regadas a bebidas e delas surgiram boas poesias. Quero que você nos conte algo que o marcou .
Tempo memorável, de tantas descobertas e questionamentos, tempo de grandes incertezas ( que hoje tornaram-se ainda maiores para mim )... devo considerar que traço mais marcante dos primeiros versos tinha a cor escura e alucinada do bom e velho Augusto dos Anjos, esse foi como um soco no estômago, lembro-me de Cruz e Souza e de um trecho riscado a lápis de cera na parede do meu quarto “ flores sangrenta do soturno vício...”, lembro-me dos poemas marcados pela brasa do cigarro, dos sonetos de Eraldo escritos em qualquer canto, da poesia de Marco Doido. Recordo-me da vodca de muitas madrugadas, de uma sociedade que embora nunca tenha existido oficialmente era bastante disciplinada em suas reuniões.
F.C- Vamos pra duas perguntas de praxe : Quais as suas influencias na hora de escrever? E qual a utilidade da poesia no mundo de hoje ?
Posso dizer que Manuel Bandeira foi meu primeiro alumbramento... quando li “Os Sapos” num fascículo chamado literatura comentada. Depois vieram as escolas literárias do ensino médio, e outros nomes passaram a povoar meu universo. Pessoa, Drummond, Augusto dos Anjos, Cruz e Souza, Florbela Espanca, Ferreira Goulart, Vinícius, Quintana... Raniery Caetano, conterrâneo e grande amigo que trouxe a poesia para perto de mim. Posto que os grande vates pertenciam ao Olimpo inacessível, e de repente um sujeito de minha cidade publica um livro chamado “Apologia das Águas”, o que de certa forma foi um convite aos primeiros rabiscos de poesia. Hoje todos estes que citei continuam a fazer parte das minhas leituras obrigatórias... no momento posso incluir Manoel de Barros ( sujeito que entortou minha poesia de azul ). Quando a utilidade desta, posso dizer que para mim tem valor desmedido, escrevo pra fugir da loucura, distrair o tédio, descobrir novas cores, inventar outras. A poesia me livra da solidão e da mediocridade.
F.C- Você acha que o mundo ainda precisa de um poeta?
Quanto a isso não tenho a menor dúvida, e felizmente eles ainda assombram a realidade dominante. O poeta é vidente no seu tempo, enxerga paragens ainda desconhecidas, não hesita em escarafunchar a ferida exposta... é o dedo da criança que denuncia que o rei está nú. Afora seu poder de tornar o mundo ainda maior... dentro e fora de nós mesmos.
F.C- E seu livro como anda seu lançamento? Tem procurado editora?
Sabes o quanto é difícil editar nesse país, no caso da poesia acredito que os caminhos sejam ainda mais estreitos. No momento tenho mantido contato com duas editoras paulistas e aguardando o valor que caiba no meu orçamento, já que de outra forma morreremos anônimos ( risos ).
F.C- Qual o cheiro da suas palavras? Que sentimentos procura passar?
Porra bicho, minha palavra cheira a tanta coisa... cheira a precipício, paixão, sexo, saudade. Minha palavra tem o cheiro dos mais desesperados sentimentos da humanidade.
F.C- Recentemente você participou de uma coletânea com cinquenta poetas de todo país com a poesia ALUMBRAMENTO, e foi premiado com a primeiro lugar num outro concurso que lhe rendeu inclusive uma premiação em dinheiro. Que representa tais menções?
Curiosamente eu nem lembrava desse concurso promovido pela Flipoços-MG na feira do livro de Poços de Caldas... fiquei surpreso quando fui contactado por eles e tive esse poema publicado nessa antologia que teve a participação de cinquenta autores conforme você citou. Independente da seleção entre dois mil autores, o que me encantou verdadeiramente foi a poesia impressa, vê-la assumir a forma de texto impresso na condição de livro. Pela primeira vez me senti verdadeiramente autor, afora o nível da obra como um todo. Esse que me rendeu algum dividendo financeiro foi realizado em São Paulo e em âmbito nacional, posso dizer que pela primeira vez a poesia me trouxe algum dinheiro e acho que poderei comprar alguns livros e cometer algumas extravagâncias ( risos ).
F.C-Qual a sua relação com a internet no tocante a divulgação do seu trabalho.
Cara, praticamente restringe-se a uma comunidade que gerencio numa rede social. Ali posto vez em quando alguns rascunhos e comento outros que recebo. É um ponto de encontro para uma minoria afeita a palavra poética, uma esquina pra poesia.
F.C- Fazendo uma auto-crítica sobre seu trabalho. Você poderia nos dizer em que grau de maturidade ele se encontra?
Não poderia, mas de alguma forma sinto que o amadurecimento é resultado do alargamento de nossas leituras, do contato com outras letras e por conseguinte com o exercício constante da escrita... de resto, palavra puxa palavra.
F.C- Deixe o seu último sorriso.O  seu recado.
Só agradecer o convite do Fantascópio Cariri por poder falar livremente sobre algo que tanto me motiva. Dizer aqueles que escrevem na penumbra que exponham à crítica seus textos, que falem de poesia sem qualquer pudor, que a levem para o centro da praça, para os mais distantes rincões. Que não se apartem da função social da mesma, do seu caráter de denúncia, e que esta possa tornar mais belo o mundo a nossa volta, as pessoas a nossa volta... ou ainda, pra lembrar Quintana “ Quem faz um poema salva um afogado ”... então que nossas braçadas não cessem, ainda que a praia não esteja vista.

O suicida



O suicida caminha cabisbaixo

Percebe o fracasso,planeja e advinha

Esse ator de platéia vazia contempla

Que lhe escolhe deslumbra o delírio

Tenta fugir da nostalgia.

É o corsário que por mares desconhecidos

Por pântanos cotidianos e desertos vividos.Silencia-se ao espelho

O suicida é o mesmo paranóico de ontem,de frases e gestos

Arrependidos,por pálpebras sonolentas veste o cansaço.

É o cálcio que sustenta os ossos miseráveis da cabeça e o fio de cabelo que se desintegra

Agrega-se aos demônios ,que aos ouvidos sopram-lhe palavras lúcidas.

O suicida é a criança de hoje e o louco de manhã

É a negra sombra do telhado que acorrenta o olhar

É um corpo aparado ,pode estar em qualquer lugar.

Por Talbert Igor

O QUE ESTOU LENDO


EU FIQUEI DEVENDO A LEITURA COMPLETA DESSE PETARDO. HAVIA LIDO NA FACULDADE DE FORMA FRACIONADA PELAS APOSTILAS DA VIDA .INDISPENSÁVEL E OBRIGATÓRIO.O BREVE SÉCULO XX VISTO PELA ÓTICA DE UM DOS MAIORES HISTORIADORES VIVOS DA ATUALIDADE.

TELOS TRANSGRESSÃO



Chopin rodopiando suavemente
Nos quatro ventos do meu coração
Esplêndido nada sincronizado do romances
E dos relacionamentos exibidos na novela das seis
Pathos correndo em minhas veias
Feito dionisius vinho impúdico em minha garganta
Minhas idiossincrasias enclausuradas
Na gruta noturna de minha inconsciência
Minha juventude dorme nas mãos esquecidas de deus
Pagão confesso partidário do caos
Aves noturnas da morte
Aves de rapina de minhas selvagens impressões
Enclausuradas e torturadas em meu universo paralelo
Cheio de contradições e contravenções e contra convenções
Nascidos da veemência fremente
Do meu telos transgressão
Poetizar é perverter e submeter ao extremo a subversão
Mistificar o absurdo e crucificar as palavras
A um culto patológico e dogmático
Como os delírios das religiões e das ciências
Em meus sonhos eu vejo o céu sangrando
E anjos sequestrados trocados pela liberdade anarquista
Que a arte reivindica e necessita
Eu vejo um labirinto caindo do décimo terceiro andar
Garganta a dentro do meu corpo
Hospedeiro do caos teofânico da poesia libertina.

POR LEIDIVAN RODRIGUES

Estômago dos Deuses

FOTO: Olavo Saldanha



Lepras chamadas de gente

Presas em seus divinos prantos

Rangem seus dentes mancos

Aguardando o Deus Fome.


Ave ! ave! Faminem


Fome ,famintos

Mortos de fome

Vivos de fome.

Templos de tripas

Hóstias de lixo

Missas na rua

Vigários mendigos.


Ave! Ave! Faminem


A fome de viver

Morreu de fome

Mas, os famélicos ainda vivem com fome

Para esfaimar-se nas calçadas

Até que a fome morra de inanição.

João Henrique

EU NÃO TENHO MEDO DE RAFAEL

- -

Óculos e barba rala nem de longe podem definir-te

Apressado e tenso passageiro do delírio

Passeia no trem fantasma do teu espelho íntimo

O teu vale de lágrimas é um rio de águas turvas

Onde teus olhos de narciso-medusa

Te convidam a um mergulho sobrenatural

Cai do décimo terceiro andar

Da ilusão imagética e irreal da arte surreal

Mas tem preguiça de cair na vida

Exita pensa...

A melancolia tua companheira e minha

Parece que agarrou-se ao teu corpo

Feito uma tatuagem que o teu íntimo medo da solidão faz crescer

Só a arte te salvará perdendo-te e matando-te para renasceres outro

Uma arte vertigem transgressora

Combustível magma de teu eruptivo e implosivo vulcão

Dissimulas o teu coração que clarividente

Como as águas que espelhavam a beleza de narciso

Transparece a tua alma paisagem imediata

Cartão de visitas marcante como um sorriso espontâneo

Participamos-te e sofremos-te o que pretensamente achas esconder.


Leidivan Rodrigues

JARDINS DE MÁGOAS



“Criar uma pequena flor

exige um trabalho de séculos”

(William Blake)


Tulipas banguelas acenam amputadas nos jardins de mágoas

Trava o artista a sua árdua batalha expressiva em busca da leveza

Bailando por sobre as intempéries da vida

Demências tangidas demências vividas demências desejadas

Calor etéreo transpira o corpo nordestino

O sol que incomoda transborda o céu de luminosidade expressiva

Melancolia me domina me atravessa noite á dentro

Como um projétil ruidoso

Insônias pesadelos e palpitações noturnas e febre

Prenunciam a presença do diabo que me tenta ao suicídio

Todos os homens estão fadados a morrer

Ou como diria Becket :


"Todos temos de nos conformar pois o inferno nos aguarda"


Além da estrada e para além do túmulo post mortem

Mas nenhuma transcendência me amedronta ou me provoca

Tanto quanto a vida tal qual ela é

The dark side of the moon

A noite persiste com seus demônios alados fustigando-me

Feito pernilongos a perturbar-me o sono

A noite desperta o artista sonâmbulo de inquietações

Delirium tremens bombardeiam o tédio

Venenos de eletricidade açoitam meu corpo hedonista

Torturado como um comunista nos porões do DOI-CODI

E eu falava em tulipas flores decepadas carnívoras e murchas

Adornam os jardins dos morros narcóticos

A guerra civil banha em vermelho

O sol da tarde inútil de domingo

Que cheira a tédio e a naftalina

Escuto o rap-requiem das favelas chapadas de Armagedom

E ao som de violinos distorcidos e toscos

Adormeço no caos silencioso e eloquente

Do inferno Kafkiano que habita em mim.

Por Leidivan Rodrigues

Barbalha, 201O.

Quando...........................



A vida é assim ,as renovações as saudades os amores

O temor é arma que pode matar o riso

As situações acontecem os fatos murcham

Quando as cores ficarem em preto e branco

As rosas sem pétalas sem raiz sem cheiro

O jardim se tornara vazio

O vento já não venta mais

A terra já não mais produz

Quando ..........

O espaço já estiver cheio

A chuva já não tem raios para molhar

Serafins sem asas suicidando-se no vazio

Chorando amores ,cuspindo ira

A solidão essa madrasta dos amores

Será mãe desses corpos

Estarão perdidos entre

Convulsões de ódio

Nadando entre os fins tristes.

Entregues a Satanás

A providência de um destino que nunca foi deles .

João Henrique




Quem tem medo da barba?


Ainda me lembro da minha primeira penugem facial na época de garoto,sempre querendo ostentar aquele símbolo capilar que tanto enchia de orgulho muitos adolescentes, raspávamos mesmo tento só aquele pouco, todos queriam ter a tal barba.Depois do 11 de setembro a barba virou símbolo de medo. Com a recente morte (?) do líder da famigerada Al-qaeda esta inaugurado o BINLADISMO SAUDOSISTA .Acho que o termo morrer de saudade ou matar a saudade se aplica bem a isso não acham ? Voltando a barba que é o que interessa . Penso com muito pesar no coração, qual o futuro da barba no mundo? Papai Noel por exemplo teríamos um velhinho sem barba ? Tome Prestobarba, Gillette nele,a primeira faz tchan a segunda faz tchun, Moisés seria reduzido a mero agente do Green Peace ou de alguma sociedade protetora dos animais,Marx sem barba !! Já pensaram na calúnia? Fidel ou Darwin,sobra até para o coitado do Gandalf ,cuidado Merlin fuja, sorte do Enéias, se pegam o Eros Grau tá frito.

Como havia falado em outras linhas o Binladismo voltou agora com faceta da saudade.Pensado bem, como seria uma canção de dor de cotovelo em árabe ? Nem me arrisco .Saudade,bomba e Arak .Os atentados serão agora em nome da dor e da perda ,seu séquito toda vez que sentir a mágoa e chorar pelo ente querido buá,buá snif,snif “ .Vai ali e faz um 11 de setembro”. A barba agora inspira medo.O mundo pós –Bin Laden esta de volta .O Obama consegui YES WE KILL .Quem tem medo da barba? Os democratas?Os republicanos?A CIA? Donald Rumesfeld. Matar o homem é fácil quero ver matar a barba.

Por JOÃO HENRIQUE

DOUTRINA DO CHOQUE -DOCUMENTÁRIO

Em A Doutrina do Choque, Naomi Klein põe um fim ao mito de que o mercado livre global triunfou democraticamente. Expondo o modo de pensar, o rasto do dinheiro e os fios de marioneta por detrás das crises e guerras mundiais das últimas quatro décadas, A Doutrina do Choque é a história absorvente de como as políticas de "mercado livre" da América têm vindo a dominar o mundo - através da exploração de povos e países em choque devido a inúmeros desastres.

DÊ UMA OLHADA NESSE POETA

Logo de cara na primeira página o livro dá o recado com a frase "Não leia agora. Aguarde a solidão tomar conta de você " Não preciso dizer mais nada meus caros leitores. Lançado em 1995 /96."Como se" tem poesias fortes mas de leveza única, as minhas preferidas são sonâmbula, diário, agonia e êxtase, chave de sete portas.
João Henrique

TEM QUE FAZER E REPASSAR!

A net tem disso: mandam coisas de Jesus, de Deus, Alá, Buda, Olorun, Iansã, Iara, São Noure, com pessoas pedindo ajuda, desaparecidos e às vezes, mesmo sem vontade de fazer em alguns momentos, os medos fazem a gente ter que fazer, passar e repassar de forma impositiva e não solidária.
Um dia recebi um para ler e de imediato não consegui fazer a leitura e fui me afastando e li: falta de sexo causa cegueira.
Eu disse, bem não é comigo. rs.
E terminei por enviar para 20 pessoas e dizia o texto que se não enviasse virava a casaca. ai, ai.
Mandaram um até suave e não é que é curioso? Pede para digitar no google: teste da alma e clicar no primeiro nome da pesquisa e seguir adiante.
Ficou melhor do que leitura de mão na praia por cigana.
Mandaram enviar pra trinta e fui além, pra mais de 150. Huuuu! Faça também e se não fizer, sei não viu... Ai, ai, ai.

POR Odara BBC-Noure Cruz

PSICOPORRA666

Entrego ao vento mudo a minha fala
Sombra que cala e aguarda
Tempo distante cheio de estrelas mortas
Fulgurantes viciadas em brilho.
Comemoremos meus caros patrícios
As últimas gotas de vinho
A velha bêbada perto do moinho.
Eu tenho náuseas todo o fim de semana
Oscular o tédio ,deitar com a derradeira revolta
Para logo em seguida trepar com a primeira calmaria.
O opaco traço da minha dúvida verseja insólitas divagações
Despejadas em dionisíacos festins
Onde centauros ,sátiros e madonas
Comungam da hóstia depravada dos sentidos.

( 1977 - 201_ ) João Henrique

DOCUMENTÁRIO DICA

“Borat” chega-nos um olhar mordaz e sarcástico sobre a religião em todo o mundo.
Do diretor Bill Maher, ativista, político, comediante e crítico de religiões, e com direção de Larry Charles (Borat). O filme contará com várias entrevistas de religiosos tendo em vista mostrar o quanto às crenças são insustentáveis e o quanto os ditos “religiosos” apenas seguem os seus líderes, já que muitos deles não sabem dizer nem a época em que o possível Jesus Cristo esteve vivo.
Duração; 1h 40min
Áudio; Inglês
Legenda; Portugues
http://www.cocaepipoca.com/2010/05/religulous-legendado-para-download.html

ANDANDO DE BORESTA PELO NADA

Me deem coisas que eu possa criar
quadrados, retas, curvas
os horizontes são sem visão
o algodão não faz nuvem
a arma não trás a paz
o símbolo não é força
dormimos sobre a glória dos que já foram
fósseis achados dentro de uma geladeira
osso, coluna, vértebra
me deem coisas que eu possa possuir
do Iraque ao beco sujo de Salvador
tudo já foi dito.
anjos em garrafas de vidro planando pelos rótulos gastos
vendo almas. Alugo Karmas
me aproximo frustrado para depois afastar-me feliz
roubo a mim mesmo
carregando o peso do cosmo em um baseado dionisíaco.

JOÃO HENRIQUE

IN EXTREMIS

In Extremis

“Oh!Sejamos pornográficos,
(docemente pornográficos)” Drummond
A pele ferve todo sal e a ferrugem,
Teu sexo abriga o ninho de cem escorpiões.
Quanta saliva é preciso para escrever este poema?
Os lábios roçam teu mamilo e a ponta dos dedos imprime dor
Indefesos, solitários...
O gosto de leite inundando a boca escorre morno
E a língua cega percorre o trilho de mel.
A flor se abre no jardim proibido e atiro a chave ao infinito.
A menina com o rosto colado ao travesseiro entrega-se ao merecido
castigo
Dois inocentes colorindo a perversão.
Tua nudez é espetáculo para as mãos.
Os dedos cavam o gozo profundo,
Entre gemidos e aleluias invocamos todos os anjos
Celebramos a liturgia dos desesperados.
Sofregamente sorvo a taça de prata
O líquido quente lava meu rosto e eis que se anuncia o meu batismo.
Galopa pequena teu corcel em brasa,
Crava os dentes em meu dorso nu
Sangra a ferida exposta... lambe as nossas culpas.

FREITAS,Ronald.Intenções de Poesia. 2010

PALAVRAS CÍNICAS

COM 46 REEDIÇÕES, FOI UM DOS LIVROS MAIS VENDIDOS EM PORTUGAL NO SÉCULO XX. Em 1905, Portugal conhecia, com espanto e admiração, a primeira de muitas edições de Palavras Cínicas. A publicação das oito cartas que compõem este livro deu origem a um leque de reacções do público, desde o aplauso fervoroso à condenação feroz. O pessimismo e a mordacidade do autor atingiram toda a sociedade portuguesa: o clericalismo enfatuado, a moral balofa, o populismo sabichão. Mais de cem anos depois, encontrarão estas cartas os mesmo destinatários? «A torpeza da vida não caberia em mil volumes como este. Que eu exagero?! Que eu exagero?! Patife, tu bem sabes que eu digo a verdade.

GENEALOGIA DE UM POETA

Pois bem - me apresento:
Sou filho da Estupidez e do Descaso
irmão primogênito da Solidão
da necessidade ríspida de ter irmãos
Com tais armaduras
Reino sobre corpos inválidos e nus
...marginália dos desgraçados
dos malditos
dos sórdidos
dos cordeiros sem alma
e sem pasto...

ou talvez eu não seja tudo isso
mas afirme ser
para conseguir chamar a atenção
daqueles que acreditam ser o que não são
para talvez conseguir enganar a atenção
daqueles que acreditam ser o que não são
e não podem ser, e jamais poderão ser
E camuflam suas vidas num estado ficcional
com a devida prudência de desligar a TV
logo após as notícias em tempo real
da Guerra no Oriente Médio
mas ignoram em suas camisetas do “Che” a posição geográfica da base de Guantánamo
(inescrupulosamente fudidos nas mãos dessa merda de juventude ignóbil).

Esses mal percebem o que consomem
e me enrolam numa seda fina
e me lambuzam com suas línguas úmidas
e me fumam em baforadas inexpressivas.

a quem reclamar o contrabando adquirido?
a quem louvar quando a imagem se parte?
Não me importuna a surdez do mundo
os revólveres soarão ainda mais estridentes.

Sim. Venham: amontoem-se ao meu redor e ceguem-me
Dilacerem minhas córneas cuidadosamente
pois tantos outros as necessitam bem mais
e eu as utilizo de maneira indevida e pouca
Tudo em mim é CULPA
Arranquem-me das mazelas que me adornam
Sangrem os meus punhos em excessiva filtragem
em busca da quantidade devida do sangue precioso
para transfusões futuras nos seus pares.
Tudo em ti é CULPA
E o que buscaremos num mundo
onde a Culpa é a exceção dos fatos?

Mesmo em face pretendo todo o ato
e dou à luz a todo tipo de moleque
Feito os becos das cidades que se erguem arrogantes
e proliferam ratos virulentos e sádicos
que invadem as bolsas da burguesia
e se perdem entre brincos e maquiagens contrabandeadas
Me atinge a vileza ao tentar educá-los
reabilitá-los à irmandade entre tais
E antecipadamente me entristeço ao ser tocado pela Felicidade:
- a felicidade, senhores, é um prelúdio à depressão.
Nunca confie num homem que busca a felicidade.

Toda negligência atemporal hospeda-se em minhas costas
no peso daquilo que carrego
na responsabilidade de liderar uma revolução
sendo eu apenas um poeta ou um pedinte
levemente talhado no cotidiano das ruas.

Um amontoado de roupas sujas habita meu dorso diário rotineiro e ininterrupto
Um amontoado de roupas sujas é o que me faz acreditar que amanhã estarei disposto
disposto talvez a não mais usá-las
a levá-las ao auxílio das máquinas de triturar
resumindo-as em retalhos e lembranças
E isso pouco me aflige
As lojas me propõem tantas outras diversamente coloridas
e divertidamente entediantes
Mas as busco veementemente
pois assim o meu domingo é bem mais saudável
e assim sou aceito e compreendido entre os da minha legião.

Percebo o tédio transpor meus dedos
e arranco-me dos dedos que trago há tempos
Tenho olhos de amontoadas tristezas
e celebro a melancolia em mim:
- sou grato por isso
Doou preces aos homens
e ponho a minha educação distante de Deus
Bebo água benta em goladas volumosas
me alimento de hóstia e pão
como se a minha fome se desse
pela mera necessidade de manter a condição de alimentar-me em curso
e jamais me propondo cativo do alimento em si
mas sem perceber sendo cativo daqueles que me alimentam
Como fazem os cães aos pulos variantes nos braços de seus adestradores
Como fazem os rebanhos aos olhos atentos dos pastores calados.
Necessitaremos sempre de um líder?

Do vinho sou abstêmio
Não pretendo manchar minha roupa nova e dominical
Ousaria eu manchá-la?

Hoje tenho a surdez em meus braços
Afago o seu nariz
fazendo com que esqueça sua horrenda conduta
Queria tê-la sempre presente em meu bolso direito
pois é de fácil acesso à mão mais calma que possuo
No bolso esquerdo guardaria uma dolla ainda não amarrotada
para dar-lhe quando despertar dum sono confuso
Bem sei que o carrasco sofre não pela barbárie do ato
mas sim por ter que carregar o machado por toda a vida.

Afilhado da Loucura:
em meu adormecer
tive todas as flores
provei de todas elas
muitas sem nem tocar
...os melhores beijos
tive das bocas que jamais ousei...

Com devida prudência perceberão:
tenho olhos secos
mãos ásperas
e um timbre de voz salubre
Os meus dedos são breves
ou são longos os objetos que busco
Orixás me guiam e me abastecem com suas armas
Mas antes – envio um ofício
com pedidos de licença ao Vaticano
pois ainda não me enviaram a carteirinha de ecumênico
nem mesmo fui excomungado ainda.

Vivo vagarosamente em meu auxílio
dentro de mim
quase sempre me perco
Retorno apenas quando todos os meus mortos estão em paz
e o barulho que produzem
não mais me amedronta.

Da esperança que não alimento edifico meus vícios
A lança que te ergo
aceita-a sem preocupação cristã
À faca: pão e mesa
Distribuída ao pendular da matéria
Não se deve ver beleza
no produto concreto daquilo que se beija
Constroem-se os hábitos e as mobílias
baseados nos cômodos da casa
Ou será o contrário?
Não sei. Definitivamente, não sei
E fui corrompido a não saber
pela quantidade de alucinógenos que me entupiram quando criança
Sei que bebo a quantidade devida
do líquido que as fábricas de copo
me induzem sutilmente a beber
e armazeno todo o resto
em recipientes construídos milimetricamente
com o intuito de adestrar a minha sede rotineira
e toda a minha esperança
Como se fosse necessário e a TV não executasse sua função devidamente
Me parece que até mesmo meu estômago
sofre com isso
e guarda compulsoriamente
cada golada que arrebato
com a precisa e gentil adaptação dos músculos do meu estômago.

Como orquestro meus sonhos
com as mesmas notas
que ouço rotineiramente advindas das Rádios
Como pinto minha tela de ilusão
com as mesmas cores
que absorvo rotineiramente advindas da tela do cinema
Como cumpro minha Arte a partir da arte de outros
e o carimbo latente do Cristianismo.

I
I
I
à parte de tudo isso?
quando estarei enfim
I
I
I
I
I
I
I
I

O Homem é produto da Fábrica e do Medo
E ele que se adapte ao câncer
pois deve moldar seu paladar
ao dissabor do alimento que digere
Como deve modular sua audição
à música que ouve
E seguiremos por um adestramento imperceptível
como todo adestramento válido
que alcança sua extensão exata
e o resultado aguardado agrada a todos:
é quando o bicho que se adestra
não se percebe adestrado
e a vida prossegue imperceptivelmente alienada
numa anestesia coletiva
para que não possamos gritar a dor
e assim acordar os nossos vizinhos em desespero.

nos alimentos;
nas flores;
nas artes;
nos cartões de Natal;
nas bocetas cobiçadas das meninas do interior
A indústria implantou um anestésico vicioso
de aroma agradável em cada um deles
Assim a Liberdade e a Felicidade
são palácios onde dormimos num chão frio e úmido
mas que jamais ousaremos negligenciar.

Quisera flor para toda primavera;
Quisera sol para todo riso;
Quisera dor para toda marca;
Quisera coisa-além.
O mundo deveria ser mais autônomo e fugir de seu completo anonimato.

Sou o que virá.
E o que se perde na distância do tempo.
Na desconstrução dos hábitos.
Em ingênuos comportamentos.
Assim me anuncio entre vós
cuspido pelo requinte de vitórias parcas
e glórias efêmeras
de um heroísmo falso e batalhas previamente perdidas
de superações ultrapassadas e vontades mudas
Carrego um cetro imbecil
ornamentado pelo desgaste de uma dinastia apática.


Rafael Sarajevo

METAMORFOSE

O poeta é autoflagelo
Carne dilacerada
Alma que se desnuda
Mil capas entranhadas.

O poeta é ferida aberta
Corpo exposto
Consciência da dor
Inconsciência de si.

O poeta está no mundo
O mundo dentro dele
A poesia dentro dele
Realidade transpirada.

O poeta é um ovo?
A clara? A gema?
Poeta é casca
Completa sensibilidade!

Masoquista!
Narcisista!
Exibicionista!
Ilusionista?

Poeta é inflamação
Hiroshima Nagasaki
Implosão mal planejada.

Pés aleijados
Caminho reto.
Mãos aleijadas
Poesia errante.

Poeta é raiz em terra estranha
Alimenta-se de nutrientes e poluentes
Não distingue as pedras que apanha.

Misto de amor e sanha
Um formigueiro na alma
Na mente: sarcasmo de aranha.

O tempo é mestre que ensina
Deslembrando um pouco de cada vez
Cada ruga, um cravo do calvário
Vulgar ironia, que desfaçatez!

Gregor Sansa meu espelho
Há no poeta mil kafkas
Não estranhe este rosto feio
Pois sou Eu com tuas marcas.

IVAN SANTANA

RECOMENDO

Esse eu recomendo achei essa peça rara em um sebo andando pelas ruas religiosas e conservadoras do Juazeiro do Norte.

...matamos o dragão,
matamos Jasão...
também Orfeu,
afinal,
pra que servem os poetas?!

Edson Xavier

CANSAÇO DAS ERAS

Vamos marchar em direção as nossas feridas
Semear agulhas por entre corações cansados
Desfilar nossas infelicidades
Purgar mazelas em bares amarelos
Não me apresentei devidamente
Me chamo Cansaço das Eras
Viajei por entre mundos tortos
Vi espadas nas mãos de santos
Confissões sem padres
Condenações sem réu
Inquisições para inocentes
O gosto da poeira
O sabor da dor
Andei entre doidos e mendigos
Li para ascetas e degenerados
Como estou exausto desse eterno retorno
Peles e ossos cansados , sorrisos em areia movediça
Eles são sempre os mesmo de outrora
Fracos, pálidos ,sem cor
Eles sempre são os mesmos
Os anos caminham e pessoas correm
O aço atravessa a carne
E a guerra passa na televisão.


Sou o Cansaço que fustiga a lepra que separa o homem do monstro
Sou o estandarte que simboliza o nada
O cruzado arrependido sem pátria

Estou cansado das mesmas eras
Do passar enjoativo da humanidade

Tenho que me entregar ao sono monossilábico
ao entrevero banal , prolixo
Desses santos corcundas.

Pois só assim vou compreender a raça humana
Apenas a ressaca sepulcral de todos os mundos pode me deixar cansado.

JOÃO HENRIQUE
 
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